31/07/2011

29/07/2011

Há algo perdido, esquecido em mim.

Deve ser eu.

stoN

27/07/2011

"Devo explicar-me. De inicio, o amor pela Geografia me veio pelos caminhos da poesia da imensa emoção poética que sobe da nossa terra e das suas belezas: dos campos, das matas, dos rios, das montanhas; capões e chapadões, alturas e planuras, ipuêiras e ca...poeiras, caatingas e restingas, montes e horizontes; do grande corpo, eterno, do Brasil.

Tinha que procurar a Geografia, pois. Porque, «para mais amar e servir o Brasil, mistér se faz melhor conhecê-lo»; já que, mesmo para o embevecimento do puro contemplativo, pouco a pouco se impõe a necessidade de uma disciplina científica. Desarmado da luz reveladora dos conhecimentos geográficos, e provido tão só da sua capacidade receptiva para a beleza, o artista vê a natureza aprisionada no campo punctiforme do momento presente.

Falta-lhe saber da grande vida, evolvente, do conjunto. Escapa-lhe a majestosa magia dos movimentos milenários: o alargamento progressivo dos vales, e a suavização dos relêvos; o rejuvenescimento dos rios, que se aprofundam; na quadra das cheias, o enganoso fluir dos falsos-braços, que são abandonados meândros; a rapina voraz e fatal dos rios que capturam outros rios, de outras bacias; o minucioso registro dos ciclos de erosão, gravado nas escarpas; as estradas dos ventos, pelos vales, se esgueirando nas gargantas das serranias; os pseudópodos da caatinga, invadindo, pouco a pouco, os «campos gerais», onde se destrói o arenito e onde vão morrendo, silentes, os buritís; e tudo o mais, enfim, que representa, numa câmera lentíssima, o estremunhar da paisagem, pelos séculos.”

(João Guimarães Rosa)

26/07/2011

Crônica de uma compra anunciada

Saindo de uma reunião no meio da tarde passei diante de uma feira de rua. Meio sem ter o que pensar, corri o olho numas barracas e não deu outra: comprei um binóculo vagabundo. Morri em vinte e cinco reais.
stoN

19/07/2011

Intervalo

Gostaria do intermédio

Quero sua cabeça loura e loira

Em meu travesseiro e trabesseiro

Quero assoviar e assobiar

com apito não apto

de ouro e de oiro

Queria ser e não ter que ser.

stoN

18/07/2011

Fonte dos desejos

São bem poucos os bens que quero pra mim

um poema de Adélia Prado

uma xícara de café arábica

um disco de Yma Sumac

uma roupa de algodão cru

e uma porta

que eu possa abrir toda manhã

e ver o mundo que eu quis pra mim.

Celi Márcio

17/07/2011


Pouco mais de uma semana de recesso é tempo suficiente para se ter certeza de que é urgente tirar dignas férias de, pelo menos, um mês...

Meus iguais,

Evoé!

Vamos lá, depois de quase um ano, empreender uma hercúlea e nefasta tentativa de trazer vida pra esse blog. Veremos se consigo vencer a preguiça e a falta de tempo mantendo ativas essas páginas. Que todos os anjos, arcanjos, serafins e querubins digam amém...

stoN

19/09/2010


Ver mais uma vez “Cinema Paradiso” trouxe-me muita emoção, como todas as outras vezes que o vi. É uma película duma doçura tão intensa que sempre me leva às lágrimas. A vida, ainda que triste, deveria ser tão poética quanto as venturas e desventuras de Totó. Tomara que os deuses nos concedam, mesmo que por um dia apenas, toda doçura que só o cinema italiano é capaz de proporcionar.
stoN

No fundo do baú 5


17/09/2010

Por engano IV

Eziel, numa ansiosa exasperação, repleta de curiosidade e medo resolve seguir a moça. Como não se apaixonar pela delgada, delicada e diáfana figura de Sofia? Por certo, tratava-se da mulher de sua vida. Não lhe restava a menor das dúvidas. Entrou no coletivo logo atrás dela e assim que o mesmo tomou os rumos do Bonocô notou o quanto o leve desgrenhar dos cabelos tornava sua feição mais jovem e angelical ainda. Parecia uma criança que volta pra casa depois de uma peraltice no quintal, cheia de vivacidade e com um cansaço leve, que justifica uma tarde ensolarada em qualquer lugar bucólico do planeta. Eziel divagava em desejos enquanto o ônibus percorria a ruas soteropolitanas e, com um semblante que poderia ser de preocupação, Sofia distraidamente olhava para fora da janela. Esse ar distante agradava a Eziel. Ele decidiu que falaria com a menina hoje. Definitivamente, assim que ela chegasse ao ponto de destino, ele a abordaria. Continuou a observá-la.
stoN

13/09/2010

Na pena de vida
Com afinco se busca
A morte
Que a dor finda.
stoN

11/09/2010

Tanto amar

Hoje tive muitas saudades de amores, cheiros e sabores. “Sei que há léguas a nos separar/ Tanto mar, tanto mar/ Sei, também, quanto é preciso, pá/ Navegar, navegar/ Canta primavera, pá/ Cá estou carente/ Manda novamente/ Algum cheirinho de alecrim”*. Sinto tanta falta do arroz com pequi, colhido por mim mesmo, no cerrado de São José do Buriti. Sinto falta do cheiro de mato queimado. O cupuaçu e a graviola de Xinguara, com suas empoeiradas ruas. O cheiro da feira de domingo e da Feirinha da Lua. Os cajus e as cajuinas de Fortaleza. Falta-me as tapiocas de Sobral. É tanta gente amada que está longe. Parte de mim sente falta de amados em Presidente Prudente, em Guaxupé, em Londres, em Montes Claros. Minha saudade se perde nas veredas de Redenção, de Mogi Mirim, de Teresópolis, de São Félix do Araguaia, na desbundância de Rio e de São Paulo. As pessoas amadas nem são tantas assim, mas o correr da vida as leva, as deixa ou a coloca onde nem minha vista nem minha voz alcançam. Só minha saudade.
*[Chico Buarque. Tanto Mar]
stoN

02/09/2010

Por engano III

Quando Eziel pegou o ônibus no ponto em frente a sua casa faltavam quinze minutos para as treze horas. Estava com medo de chegar atrasado para o teste que fora chamado. A atendente da agência disse que os quatro candidatos selecionados tinham que estar lá às 14:00. Tomara que não haja congestionamento, pensou. Não teve sorte, acabou perdendo a hora. Quando lá chegou já haviam selecionado o futuro vendedor de ração no comercial que seria veiculado em horário nobre. Bastante enraivecido, Eziel decide ir à biblioteca entregar o livro do Tchekhov que havia estudado durante a semana. Ao cruzar a praça, já voltando para casa, levou o maior susto: Sofia estava parada no ponto de ônibus. Estava tão linda como sempre esteve, perdida em pensamentos ou apenas observando se o ônibus dobraria a esquina.
stoN