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17/09/2010

Por engano IV

Eziel, numa ansiosa exasperação, repleta de curiosidade e medo resolve seguir a moça. Como não se apaixonar pela delgada, delicada e diáfana figura de Sofia? Por certo, tratava-se da mulher de sua vida. Não lhe restava a menor das dúvidas. Entrou no coletivo logo atrás dela e assim que o mesmo tomou os rumos do Bonocô notou o quanto o leve desgrenhar dos cabelos tornava sua feição mais jovem e angelical ainda. Parecia uma criança que volta pra casa depois de uma peraltice no quintal, cheia de vivacidade e com um cansaço leve, que justifica uma tarde ensolarada em qualquer lugar bucólico do planeta. Eziel divagava em desejos enquanto o ônibus percorria a ruas soteropolitanas e, com um semblante que poderia ser de preocupação, Sofia distraidamente olhava para fora da janela. Esse ar distante agradava a Eziel. Ele decidiu que falaria com a menina hoje. Definitivamente, assim que ela chegasse ao ponto de destino, ele a abordaria. Continuou a observá-la.
stoN

02/09/2010

Por engano III

Quando Eziel pegou o ônibus no ponto em frente a sua casa faltavam quinze minutos para as treze horas. Estava com medo de chegar atrasado para o teste que fora chamado. A atendente da agência disse que os quatro candidatos selecionados tinham que estar lá às 14:00. Tomara que não haja congestionamento, pensou. Não teve sorte, acabou perdendo a hora. Quando lá chegou já haviam selecionado o futuro vendedor de ração no comercial que seria veiculado em horário nobre. Bastante enraivecido, Eziel decide ir à biblioteca entregar o livro do Tchekhov que havia estudado durante a semana. Ao cruzar a praça, já voltando para casa, levou o maior susto: Sofia estava parada no ponto de ônibus. Estava tão linda como sempre esteve, perdida em pensamentos ou apenas observando se o ônibus dobraria a esquina.
stoN

29/08/2010

Por engano II

A noite quente de Salvador expulsou Eziel de casa, a despeito do cansaço enorme que sentia. A tarde fotografando para o comercial da Sapataria Popular Baiana tinha sido um saco. Desde que abandonou o emprego e o curso de administração para se dedicar a carreira de ator, ele não pode recusar nenhum trabalho, e eles tem sido raros. Quando deu por si, já estava a caminho da casa de Sofia. Tinha esperança de vê-la chegando da faculdade ou da igreja. Enquanto andava, imaginava se uma fiel tão ardorosa não se sentiria ofendida com qualquer galanteio vindo de um ator de meia tigela como ele. Ainda mais se ela tivesse visto aquele escorregão que ele levou em frente ao trabalho dela. Ainda faltavam uns três quarteirões para chegar à casa de Sofia quando Eziel resolveu voltar pra casa. Melhor tomar uma sopa e dormir cedo.
stoN

04/04/2010

Por engano I

Foi de uma forma desconcertante que Eziel conseguiu ajeitar o passo após o tropeção, o que era difícil de ser feito em calçamento tão irregular e úmido. Sentiu uma vergonha seca por parecer tão desajeitado justo em frente à loja onde Sofia trabalha. Pegou com todos os orixás para que ela, ou alguém que o conheça e possa dizer a ela, não o tenha visto quase a se estabacar tentando avistar Sofia. Por os olhos nela, ainda que muito rapidamente, e de longe, era melhor do que não vê-la por tanto tempo. A vergonha foi diluída no pensamento de que talvez, no dia seguinte, encontrasse a menina na volta da igreja. Eziel voltou cansado pra casa, pois percorrera a cidade de um lado a outro a pé. Era um dos menores esforços que fazia para satisfazer sua muda paixão. Tomou uma sopa quente e dormiu cedo. Tinha muito o que ser feito no dia seguinte.
stoN