10/04/2008

Cacofônicas Políticas


Promulgada lei que prolonga pavimentação de logradouro público.
stoN

09/04/2008

Foi de um jeito estranhamente austero que Solange me comunicou que nosso relacionamento estava rompido. Qual relacionamento? Por dois longos minutos me perguntei sobre isso e depois voltei a me dedicar ao trabalho. O telefone toca de novo. Vou mandar Solange à merda, pensei.
_ Arlindo, você pode vir até a minha sala?
Praticamente me teletransportei para a sala de Oscar. O cara era um bom chefe, sempre tinha sido legal comigo.

Duas horas depois estava sentado num banco do parque. Fui demitido. Pretendo nunca mais atender ao telefone e se o fizer, será para xingar o interlocutor.
Comprei um saco de pimentinha e fui pra casa. Com o celular desligado. Se o bicho toca é capaz de começar uma guerra ou pra me avisarem que tenho apenas três meses de vida.

Encontrei Solange me esperando na porta do prédio. Como, diabos, ela sabia que voltaria pra casa mais cedo? Será que ela estava tendo um caso com Oscar? Pouco provável. Ele parece gay demais para ela e Solange é metódica demais pra ele.

Penso em passar direto, fingir que não a vi. Tentativa frustrada, ela corre em minha direção, me enche o peito de murros e, aos berros, anuncia pro quarteirão inteiro que sou um canalha. Como se todos já não soubessem.

Depois de me livrar da descompensada vou comer minha pimentinha com suco de limão e ver tv. Hoje eu poderia ter o meu “dia de fúria”.

06/04/2008

Definição do Amor

Gregório de Matos

Mandai-me Senhores, hoje
que em breves rasgos descreva
do Amor a ilustre prosápia,
e de Cupido as proezas.
Dizem que de clara escuma,
dizem que do mar nascera,
que pegam debaixo d’água
as armas que o amor carrega.
O arco talvez de pipa,
a seta talvez esteira,
despido como um maroto,
cego como uma toupeira
E isto é o Amor? É um corno.
Isto é o Cupido? Má peça.
Aconselho que não comprem
Ainda que lhe achem venda
O amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias
Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um reboliço de ancas,
quem diz outra coisa é besta.

05/04/2008

03/04/2008

O pensamento

O cheiro do alho e da cebola fritos no azeite fez doer de fome o estômago de Alfredo. O prazer doce de assistir tv, tomar cerveja e ouvir e sentir o almoço sendo preparado era uma grande satisfação no início de tarde. Na cozinha, Dona Cleuza abaixou-se para pegar o caldo de galinha no armário. As costas doíam. Fazia tempo que ela já não era mais aquela “flor viçosa” que Alfredo descrevia em poemas suburbanos, cheios de suspiros e floreios. Os suspiros agora são apenas de saudade e de cansaço. Não havia mais caldo e a porta do armário despencou. Nem tentou arrumar.

_ Frêdo, olhe esse molho enquanto busco um troço no mercadinho da esquina.

Ele fingiu não ter ouvido. Ela saiu e nem reparou onde caíra o avental.
Dona Cleuza nem pensava mais no mercadinho e andava descompromissada e sem rumo. Quando deu por si, já havia entrado no ônibus. As ruas passavam por ela e as portas das lojas e os portões das casas pareciam acusá-la de velhice, de insanidade, de cheirar a cebola, mas ela não pensava nisso. Não queria pensar em nada.

Desceu no ponto próximo ao baixo meretrício e nunca mais voltou pra casa. Ela não pensou em nada. Seu primeiro cliente ainda pôde sentir o cheirinho de tempero caseiro em suas mãos e em suas roupas. Foi consolador, ele se lembrou do colo da mãe, no interior da Bahia. E ela teve o seu primeiro orgasmo.

Dona Cleuza, mesmo depois de anos, não pensa no que fez ou no que deixou de fazer. Nem mesmo no moço bonito, de olhar penetrante que sempre a observa do ônibus. Ele sabe que ela é puta, mas Dona Cleuza preferiu não pensar nisso.
Catarina Sá

02/04/2008

Palatáveis palavras


prosopopéia
enveredar-se
preâmbulos
promiscuidades
terminologia
petulante
meandros
vagabunda
sapiência
desertificação

01/04/2008

nunca durma pelado/a

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Tudo anda tão estranho no mundo. Tem até chiclete dietético sabor melancia. Onde vamos parar com isso? O que mais essa gente vai inventar? Sei que vai dando é desespero diante de tanta inútil novidade, novas inutilidades... E tudo continua tão confuso quanto antes, ou pior. É mesmo o fim de tudo e o começo do nada. Tem sempre consolo: “Largo tudo se você chegar agora/ O amor tá em cima da hora/ O seu amor ou o meu?/ Não dá/ Logo depois de amar/ As lágrimas rolam e ninguém me diz/ Não dá/ Posso te esperar, ou não/ Mas quase não dá para ser feliz”