Tive um dia daqueles. Uma filha da puta de uma segunda feira. Fui acordado as quatro da matina por meu vizinho que liga, embaixo da minha janela, o seu caminhão para trabalhar. Tive uma reunião na hora do almoço e uma outra, muito enfadonha, que começou com atraso, durou a tarde toda, teve chilique e não resolveu o problema (que é grave e tem prazo curto pra ser resolvido). Por causas e culpas que fogem ao meu controle (leia-se ineficiência alheia) voltará um cheque, de valor considerável, em minha conta. Sem dizer nos congestionamentos, ônibus lotado, dor nas costas e o fato d'eu estar trabalhando até agora (20:30). Parece que alguém no céu ou no inferno cisma que a minha vida deverá ser uma merda, faz tudo para que isso aconteça e é eficiente e eficaz em seus intentos. Uma coisa me alegra: não há nada que uma boa noite de sono e um milhão de reais não resolvam.
Para que todos tenham leitura em abundância e, como quem mel come, se enjoem e que as formigas não os alcancem...
04/08/2008
Um dia irmão, comemoraremos a vitória tão esperada. Os que jogaram, os que só torceram na arquibancada. E bêbados de nós mesmos, a mesa coberta com os destroços do combate. Difícil dizer o que é sangue, e o que é molho de tomate. Brindaremos as cadeiras vazias dos que lá não estão. Os fantasmas de uma geração. Um que morreu no exílio e foi devorado por vermes estrangeiros. Um que enloqueceu um pouco e tem delírios passageiros. Um que ía mudar o mundo e se mudou. Um que era o melhor de nós e vacilou. Nossa Rosa Luxemburgo que abriu uma botique. Nosso quase Che Guevara, que hoje vive de trambique. Estaremos você e eu, irmão, e os balões circundarão nossas cabeças, como velhos remorsos. E os garçons olharão para nós, e desejarão a nossa morte. Dane-se as nossas trapalhadas, estivemos nas barricadas. Não temos placas na rua, como heróis da resistência, mas, temos consciência de que os bárbaros não passaram.
Então você dirá:
- Como heróis ? Como não passaram? Meu querido, fui eu quem vi, não te falaram? Os bárbaros ganharam!
Luiz Fernando Veríssimo
03/08/2008
02/08/2008
Um pouco de Martha Medeiros
Era verão ou qualquer troço assim
Lua cheia ou algo parecido
Uma saudade ou quase a mesma coisa
Era amor ou mais ou menos isso
Lua cheia ou algo parecido
Uma saudade ou quase a mesma coisa
Era amor ou mais ou menos isso
30/07/2008
Meu maior problema é ser jovem e lindo. É porque nunca fui jovem e lindo. Já fui lindo, e jovem, mas nunca ao mesmo tempo. Ninguém repararia mesmo. Um amigo psicólogo acha ser esse o motivo da minha atração por homens descritos como velhos e feios. Acho que ele me subestima. Uma pessoa feia só tem problema com uma bonita. Mas uma bonita consegue ao menos que a feia lhe pague o táxi.
Já caí por um rosto bonito, mas quando a sorte está lançada prefiro me garantir. Quando as luzes se apagam é festa ou fome. O problema é o dia seguinte. A alegria de algo belo acaba ao amanhecer. Há outro grupo perigoso: os casos perdidos. Dividem-se em três categorias: casados, transas de fim de semana e heterossexuais convictos. São os piores. Você entra de olhos abertos, aceitando as limitações. Quando vê está acendendo velas pretas à meia noite. E pergunta-se: “o que houve?”. Vou dizer, conseguiu o que procurava. Quem acha que sabe lidar com um caso perdido é quem sustenta os editores de romances baratos. (...)
Para quem quer se divertir sou um artista. O que sobrou de um. (...)
Sou de uma raça em extinção. Quando os gays ganharem direitos civis, seremos varridos para debaixo do tapete. Como os negros em “Aunt Jemina”. Tudo bem. Com esse rosto e voz, não me preocupo. Posso ser taxista. Há coisas melhores do que ser um travesti, mas não tenho escolha. Por mais que eu tente, não consigo usar sapatos sem salto. (...)
Sabe, dormi com mais homens do que os nomes da Bíblia. Velho e novo testamento, mas nenhum disse “Arnold, eu te amo”, que fosse sincero. E eu me pergunto: isso o incomoda? A única resposta honesta é sim. Incomoda! Incomoda muito! Mas não o suficiente.
Já caí por um rosto bonito, mas quando a sorte está lançada prefiro me garantir. Quando as luzes se apagam é festa ou fome. O problema é o dia seguinte. A alegria de algo belo acaba ao amanhecer. Há outro grupo perigoso: os casos perdidos. Dividem-se em três categorias: casados, transas de fim de semana e heterossexuais convictos. São os piores. Você entra de olhos abertos, aceitando as limitações. Quando vê está acendendo velas pretas à meia noite. E pergunta-se: “o que houve?”. Vou dizer, conseguiu o que procurava. Quem acha que sabe lidar com um caso perdido é quem sustenta os editores de romances baratos. (...)
Para quem quer se divertir sou um artista. O que sobrou de um. (...)
Sou de uma raça em extinção. Quando os gays ganharem direitos civis, seremos varridos para debaixo do tapete. Como os negros em “Aunt Jemina”. Tudo bem. Com esse rosto e voz, não me preocupo. Posso ser taxista. Há coisas melhores do que ser um travesti, mas não tenho escolha. Por mais que eu tente, não consigo usar sapatos sem salto. (...)
Sabe, dormi com mais homens do que os nomes da Bíblia. Velho e novo testamento, mas nenhum disse “Arnold, eu te amo”, que fosse sincero. E eu me pergunto: isso o incomoda? A única resposta honesta é sim. Incomoda! Incomoda muito! Mas não o suficiente.
Nova York, 1971
Arnold Beckoft
“Essa estranha atração”
29/07/2008
Ouvi o barulho da panela de pressão. Cheiro de milho veio depois. Faltava ouvir a Rádio Itatiaia e o som de minha mãe esfregando roupa pro cenário completo se formar. Carpir sonhos em tardes pachorrentas. Tão pachorrentas quanto um pátio de manutenção ferroviária: “Se você não quer aparecer, não deixe que o fato aconteça”...
28/07/2008
FRED LEVA JEITO XVII
O primo sarado que mora em Brasília veio passar as férias na casa de Fred. Todas as amigas do nosso herói ficaram alvoroçadas quando viram o primo no clube. Na volta pra casa, emburrado, Fred pergunta:
- Você não acha que essas meninas são todas fáceis demais?
Quando desci do trem esperei a gente apressada, faminta nuvem de gafanhotos, se dissipar. Tenho tido tanto cansaço que nem sei. Não sei se quero continuar o tratamento odontológico, se ainda sou não-fumante, se continuar lendo tanto vale à pena. Nem sei se quero continuar solteiro, se busco novo emprego ou se compro mesmo um computador portátil. É um cansaço da vida, da existência. Tô de saco cheio das letras, dos sabores, dos cheiros da pele humana. Não agüento mais o gosto das salivas. Eu preciso voltar pra caverna. Nem sei se quero, nem sei se penso. Nem sei. Nem.
27/07/2008
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