31/03/2009

MARÉ BAIXA 03

Já faz muito tempo que Miguel passa horas a fio, por várias noites, observando Arlete. Já saiu com duas de suas amigas e descobriu bastante coisa a respeito dela. É prostituta há três anos, o mesmo tempo que ele trabalha na livraria, pensou. Descobriu também que ela é lésbica e tem um filho de cinco anos. Miguel tem um interesse enviesado pela prostituta do sorriso bonito. Basta pagá-la, mas isso ele não quer. Ele não quer a prostituta. Quer o sorriso dela. Miguel está se achando um tanto psicopata. As putas também.
stoN

Visagem II

Bonito como o Keanu Reeves
Chega a se parecer com ele
E tem olhar de psicopata
Deve estar apaixonado.
stoN

30/03/2009

MARÉ BAIXA 02

Quando viu Arlete pela primeira vez, Miguel logo intuiu qual era a profissão da moça. O visual, o perfume e o local onde estava parada não deixavam margem pra dúvida. Teve vontade de abordá-la, mas não arriscou, nunca foi bom nisso. Nem mesmo a embriaguês dava-lhe a coragem suficiente para tanto. Sentia-se estático, desnorteado e febril, como Raskólhnikov. Nem podia, ou sabia, dizer se era desejo ou não. Só sentia que era inevitável, urgente e emergente estar com ela. Precisava dela, mas não conseguiu chegar até ela. Depois de horas observando Arlete do bar, decidiu voltar no dia seguinte e, aí sim, preparado e com mais segurança, conversar com a moça de sorriso indecentemente lindo. Deve ser por causa desse sorriso que ela conseguiu três clientes naquela noite.
stoN

Visagem I

Ela tinha olhos muito tristes
Tive vontade de saber o seu nome
Era tarde
Ela já sabia o meu.
stoN

29/03/2009

MARÉ BAIXA 01

Soraia acabou de comprar um carro e não pretende emprestá-lo para o seu irmão Miguel. O moço está desolado, pois, em pleno sábado, comprou três garrafas de vinho branco, todos os amigos estarão na festa e ele não tem como sair de casa. Com tanta chuva, ir de ônibus seria horrível. Mesmo se ele já tivesse comprado sua moto não teria como sair. A vida nunca é justa para um vendedor de livraria.
Miguel nem se lembra de quando foi que leu um livro. Por certo deve ter sido na quinta série. Mas vê muita importância nos livros e na leitura, pois é através deles que garante o seu mísero salário. De banho tomado, gel no cabelo e bastante perfumado, voltou pro MSN praguejando Soraia que não entende sua necessidade de ser feliz. Aliás, ninguém o faz.
stoN

28/03/2009

Não adianta seguir tomando hidróxido de alumínio quando se está diante de um clássico caso que carece de tomar é vergonha na cara. Pensou. Agora que o barulho lá fora parou, ele pode tentar se concentrar no texto enfadonho. Pena que a chuva fina vai, aos poucos, sendo substituída por um sol preguiçoso. É mais fácil ficar estudando com o tempo ruim. Nada disso faz muito sentido mesmo: dor no estômago, estudo, vergonha, sol com chuva...
stoN

27/03/2009

Depois de uma longa semana de trabalho exaustivo, vamos a mais uma sexta sem lei e sem juízo. Que todos os orixás nos protejam e como diria Vinicius: Encararemos!!!


stoN

26/03/2009

Sentiu o cheiro forte, mesmo antes de abrir a porta. Quando conseguiu chegar até o quarto, já muito atordoado por pressentir a putrefação cadavérica, quase desmaiou. Teve um pensamento besta: a podridão humana é pior do que a do composto orgânico no aterro sanitário onde trabalha. Sílvio teve medo de não suportar a avalanche de coisas chatas que viriam a seguir. Quis morrer também.
Olhando para a mãe no caixão, lembrou-se de como gosta de usar a caneta até o fim, até que ela fique totalmente transparente, sem tinta. Foi mais um pensamento besta.
stoN