13/08/2008

O bom professor tratou Silvânia com cortesia e muito atenciosamente. Ele usava o mesmo perfume amadeirado de sempre. Ela, independente do interesse em biogeografia, esquecera-se completamente da aula. A voz do propedeuta foi sumindo de sua atenção e, em menos de quinze minutos, ela só pensava na saudade que sentia de sua cidade natal e de Tiago. A origem da vida perdeu-se nas lembranças da praça da igreja e do abraço caloroso que o primo lhe dera na despedida. Estranhamente tudo parecia tão distante no tempo e no espaço que Silvânia pensou ter pelo menos uns dois séculos de existência. Quando voltou a se concentrar na aula já estava no finzinho. Naquela noite foi pro ponto de ônibus incomodada com essa sensação de tempo ido, passado e com o pensamento distante. Na viagem de volta pra casa leu, na rápida passagem por um muro grafitado: Réplubique Française, teve vontade de ser madame e passear por Paris. Antes de dormir, ela se lembrou do enterro: invariavelmente, depois de coberto o caixão, sobra terra. Sempre sobra muita terra.
¨
STon

10/08/2008


Depois de um final de semana de intenso trabalho tento retomar o rumo normal da vida. Como se algo na vida tivesse rumo ou fosse normal. E antes que o cansaço me derrube, passo pra naufragar um pouco na net. “Não há nada de novo sob o sol” e ainda sinto saudade de Martinha e de um monte de coisa boa. Sinto falta dos amigos responderem mensagens e e-mails. Fico muito feliz quando isso acontece e acho um tanto absurdo tal procedimento ser tão raro. Espero que eu sobreviva a mais uma olimpíada; a mais uma semana de trabalho usando o transporte público; a mais uma tonelada de reuniões e de textos e de projetos pra escrever e que eu realmente não precise ouvir a voz do Galvão Bueno.

07/08/2008

Precisão


Passei pelo passadio
Com pressa
Precisei ir pro Pacífico
Pena que você parou
Pressuponho
Que pacífica
Foi a passagem.
¨
Ston

05/08/2008

A Bunda, que Engraçada**

Drummond
A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda,
redunda

**Menção honrosa em desagravo à bunda do Marcelo.

04/08/2008

Tem dias que parecem noites

Tive um dia daqueles. Uma filha da puta de uma segunda feira. Fui acordado as quatro da matina por meu vizinho que liga, embaixo da minha janela, o seu caminhão para trabalhar. Tive uma reunião na hora do almoço e uma outra, muito enfadonha, que começou com atraso, durou a tarde toda, teve chilique e não resolveu o problema (que é grave e tem prazo curto pra ser resolvido). Por causas e culpas que fogem ao meu controle (leia-se ineficiência alheia) voltará um cheque, de valor considerável, em minha conta. Sem dizer nos congestionamentos, ônibus lotado, dor nas costas e o fato d'eu estar trabalhando até agora (20:30). Parece que alguém no céu ou no inferno cisma que a minha vida deverá ser uma merda, faz tudo para que isso aconteça e é eficiente e eficaz em seus intentos. Uma coisa me alegra: não há nada que uma boa noite de sono e um milhão de reais não resolvam.
Um dia irmão, comemoraremos a vitória tão esperada. Os que jogaram, os que só torceram na arquibancada. E bêbados de nós mesmos, a mesa coberta com os destroços do combate. Difícil dizer o que é sangue, e o que é molho de tomate. Brindaremos as cadeiras vazias dos que lá não estão. Os fantasmas de uma geração. Um que morreu no exílio e foi devorado por vermes estrangeiros. Um que enloqueceu um pouco e tem delírios passageiros. Um que ía mudar o mundo e se mudou. Um que era o melhor de nós e vacilou. Nossa Rosa Luxemburgo que abriu uma botique. Nosso quase Che Guevara, que hoje vive de trambique. Estaremos você e eu, irmão, e os balões circundarão nossas cabeças, como velhos remorsos. E os garçons olharão para nós, e desejarão a nossa morte. Dane-se as nossas trapalhadas, estivemos nas barricadas. Não temos placas na rua, como heróis da resistência, mas, temos consciência de que os bárbaros não passaram.
Então você dirá:
- Como heróis ? Como não passaram? Meu querido, fui eu quem vi, não te falaram? Os bárbaros ganharam!
Luiz Fernando Veríssimo

03/08/2008

02/08/2008


Um pouco de Martha Medeiros

Era verão ou qualquer troço assim
Lua cheia ou algo parecido
Uma saudade ou quase a mesma coisa
Era amor ou mais ou menos isso