20/08/2008

FRED LEVA JEITO XVIII

Depois de uma viagem de férias ao Ceará, onde Fred tem um parente, o moço voltou bronzeado e com um piercing novo. Dessa vez o adereço é no rosto e não teve como se safar do alvoroço familiar. Fred conteve a calorosa discussão quando saiu com essa:
_ Da próxima vez coloco num lugar onde poucos vejam.

19/08/2008

Meu doce amigo Celi, que sempre me aplica músicas maravilhosas, apresentou-me o paulista Fênix. O moço canta com voz pueril, da forma mais delicada possível. É algo encantador. Não sei quem é o compositor da letra que segue. Não me canso de ouvi-la. É algo indescritível.
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MARFIM
Faz tempo faz
As tardes foram e não voltam
Um tempo atrás
Bebemos cores no sótão
Sei que você não volta mais para mim
Ainda é capaz
Daquilo que outros não tocam
Nem lembro mais
Das coisas ruins dissipadas
Quem vai rabiscar meu marfim
Oh, oh, oh, quero você de volta
Oh, oh, oh, entra, nem bate a porta
Oh, mostra que está afim
Oh, oh, oh, quero você de volta
Oh, oh, oh, entra, nem bate a porta
Oh, mostra que está afim de mim

18/08/2008


O retorno da viagem é sempre menos animado, mas dessa vez teve um gosto diferente, teve um jeito estranho de retornar pras coisas do cotidiano. Estou realmente precisando de longas férias longe de BH. Música e livros, ar livre e caminhadas demoradas: é do que estou precisando desmedidamente. A saudade de um amor específico ou da própria cama perdem-se na inevitável constatação: “meu lar é onde estão os meus sapatos”. Cada vez mais me convenço de que não posso enraizar-me nem num canto, nem na estrada... Novamente roubando dalgum poeta: “Preciso encontrar alguém que queira encontrar alguém”.
Ston
Foto: Lourenço Lobsomem - Pousada Serra Que Chora
Maristela acordou muito cedo e teve preguiça de enfrentar o frio que imperava para além do aconchego das alfaias. Sabia que a neblina circundava a casa toda, que não enxergaria nem a porteira do curral. Ainda tonta de sono começou a pensar na vidinha tacanha que vivia no sítio com Almindo. Ele já deve estar ordenhando. Sempre acordava cedo e, depois de preparar o café forte e doce, ia para o curral cuidar das vacas. Ela já não pensava em melhorar as coisas no sítio para eles terem mais conforto. Cansara-se de tentar convencer ao companheiro de que poderiam viver um pouco melhor sem gastar grande fortuna ou cometer pecado algum. Queria uma vida melhor, mas isso não pressupunha, obrigatoriamente, a companhia de Almindo.
Com certo custo, levantou-se e foi tomar o café doce do marido. O mesmo café doce de todos os dias. Viu seu reflexo no alumínio areado das panelas. Teve saudade do viço da mocidade. Era preciso ter muita coragem para envelhecer com dignidade. Não era o seu caso. Preferiria morrer a ter que continuar vivendo no sítio.
Almindo sabia que perderia a companhia da morena logo. Conhecia as coisas da natureza, e a essência humana não difere das dos bichos. A cabrocha estava triste demais e, como ave canora capturada, fica amuada, sente falta de liberdade e quer céu.
Ston

13/08/2008

Friedrich Nietzsche define a alma alemã:
Um alemão que ousasse afirmar “Duas almas, oh! Habitam em meu peito” estaria bem longe da verdade, ou melhor, ficaria muitas almas aquém da verdade. (...) A alma alemã tem corredores e veredas em si, no seu interior existem cavernas, esconsos e masmorras; sua desordem tem muito de encanto do mistério; o alemão conhece os caminhos tortuosos para o caos. E como toda coisa ama seu símile, o alemão ama as nuvens e tudo que é turvo, cambiante, crepuscular, úmido e velado: todo tipo de coisa incerta, inacabada, evasiva, em crescimento. (...) O alemão mesmo não é, ele se torna, se desenvolve.
Acho que a minha é assim.
Ston
O bom professor tratou Silvânia com cortesia e muito atenciosamente. Ele usava o mesmo perfume amadeirado de sempre. Ela, independente do interesse em biogeografia, esquecera-se completamente da aula. A voz do propedeuta foi sumindo de sua atenção e, em menos de quinze minutos, ela só pensava na saudade que sentia de sua cidade natal e de Tiago. A origem da vida perdeu-se nas lembranças da praça da igreja e do abraço caloroso que o primo lhe dera na despedida. Estranhamente tudo parecia tão distante no tempo e no espaço que Silvânia pensou ter pelo menos uns dois séculos de existência. Quando voltou a se concentrar na aula já estava no finzinho. Naquela noite foi pro ponto de ônibus incomodada com essa sensação de tempo ido, passado e com o pensamento distante. Na viagem de volta pra casa leu, na rápida passagem por um muro grafitado: Réplubique Française, teve vontade de ser madame e passear por Paris. Antes de dormir, ela se lembrou do enterro: invariavelmente, depois de coberto o caixão, sobra terra. Sempre sobra muita terra.
¨
STon

10/08/2008


Depois de um final de semana de intenso trabalho tento retomar o rumo normal da vida. Como se algo na vida tivesse rumo ou fosse normal. E antes que o cansaço me derrube, passo pra naufragar um pouco na net. “Não há nada de novo sob o sol” e ainda sinto saudade de Martinha e de um monte de coisa boa. Sinto falta dos amigos responderem mensagens e e-mails. Fico muito feliz quando isso acontece e acho um tanto absurdo tal procedimento ser tão raro. Espero que eu sobreviva a mais uma olimpíada; a mais uma semana de trabalho usando o transporte público; a mais uma tonelada de reuniões e de textos e de projetos pra escrever e que eu realmente não precise ouvir a voz do Galvão Bueno.

07/08/2008

Precisão


Passei pelo passadio
Com pressa
Precisei ir pro Pacífico
Pena que você parou
Pressuponho
Que pacífica
Foi a passagem.
¨
Ston

05/08/2008

A Bunda, que Engraçada**

Drummond
A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda,
redunda

**Menção honrosa em desagravo à bunda do Marcelo.